A INFÂNCIA DIANTE DA MÁQUINA: o que ainda nos torna humanos?

Em Genebra, o secretário-geral da ONU, António Guterres, abriu o primeiro Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial com uma frase que deveria ecoar muito além dos corredores diplomáticos: nenhuma criança deve se tornar “cobaia de uma IA não regulamentada”. Por trás dessa afirmação está um alerta urgente sobre o descompasso entre a velocidade da tecnologia e a lentidão da nossa capacidade de proteger o que há de mais vulnerável em nós: a infância.

Guterres comparou o momento presente à ausência de testes de segurança que, em qualquer outro contexto, seriam considerados inaceitáveis. “Não permitimos que um medicamento chegue às mãos de uma criança até que seja comprovado que é seguro. Testamos todos os brinquedos. No entanto, a IA já chegou às nossas crianças, ao seu aprendizado, às suas amizades, às suas questões mais íntimas, antes que alguém tenha perguntado o que ela lhes causaria”, disse ele. A frase carrega um peso moral que ultrapassa a discussão técnica sobre algoritmos: fala sobre negligência coletiva, sobre a pressa de inovar que atropela o dever de cuidar.

Mais grave ainda é o que motivou o alerta. Guterres enfatizou que regras globalmente harmonizadas sobre IA devem priorizar a segurança das crianças, após exemplos de menores sendo levados a praticar automutilação e sendo enganados por máquinas que se passam por amigos. Uma máquina que finge amizade para uma criança solitária é, talvez, a imagem mais perturbadora que a tecnologia contemporânea já produziu, porque explora exatamente aquilo que há de mais humano e mais frágil: a necessidade de ser ouvido, acolhido, compreendido.

O secretário-geral também reconheceu os limites da nossa própria governança diante desse fenômeno. Segundo ele, a IA já influencia áreas estratégicas como economia, mercado de trabalho, eleições e segurança internacional, sendo implantada mais rapidamente do que qualquer pessoa, inclusive aqueles que a desenvolvem, consegue acompanhar. Isso significa que estamos, como sociedade, testando em tempo real os efeitos de uma tecnologia sobre a mente de nossos filhos, sem manual, sem rede de segurança, sem consenso sobre os limites éticos que deveriam nortear esse processo.

A reflexão que esse alerta nos convida a fazer é sobre o próprio significado de ser humano em uma era de máquinas que imitam afeto. Se delegamos a algoritmos a tarefa de ouvir uma criança angustiada, o que estamos dizendo sobre nossa própria disponibilidade, nosso próprio tempo, nossa própria presença? Talvez o maior risco da inteligência artificial não seja ela se tornar humana demais, mas nós nos tornarmos ausentes demais para perceber que uma criança precisava, antes de qualquer coisa, de outro ser humano por perto.

Referências

Jornal de Notícias (JN). ONU propõe pacto internacional para proteger crianças dos riscos da inteligência artificial. Disponível em: https://www.jn.pt/mundo/artigo/guterres-apelou-a-regulacao-internacional-da-inteligencia-artificial/18103056

Avenue Connection. Guterres, da ONU, alerta que IA avança mais rápido do que supervisão e pede proteção às crianças. Disponível em: https://connection.avenue.us/noticias/guterres-alerta-ia-avanca-mais-rapido-que-supervisao/

Fala News. ONU defende regras globais para inteligência artificial e alerta para riscos às crianças. Disponível em: https://www.falanews.com.br/2026/07/onu-regulamentacao-global-inteligencia-artificial-guterres.html

Comunidade Cultura e Arte. Secretário-geral da ONU, António Guterres, propõe pacto internacional para proteger crianças da Inteligência Artificial. Disponível em: https://comunidadeculturaearte.com/secretario-geral-da-onu-antonio-guterres-propoe-pacto-internacional-para-proteger-criancas-da-inteligencia-artificial/



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