A possibilidade de a inteligência artificial passar a corrigir redações do maior exame educacional do país trouxe à tona uma discussão que vai muito além da tecnologia: a confiança dos estudantes no processo que define seu futuro acadêmico. Em audiência pública na Câmara dos Deputados,estudantes cobraram mais transparência na correção das redações e no acesso às avaliações, após questionamentos sobre supostas inconsistências e falta de transparência nas notas da edição de 2025.
Em resposta,o diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep afirmou que a matriz de referência da redação é a mesma desde 2009, havendo apenas aumento do rigor na identificação de textos produzidos a partir de modelos padronizados, e que os corretores recebem treinamento específico, com cada redação avaliada por dois profissionais independentes, sem conhecimento da nota atribuída pelo outro avaliador, informando ainda que o Inep iniciará uma prova de conceito com empresas de tecnologia para avaliar o uso de IA no processo de correção.
O relato de um representante estudantil expõe o cerne ético da questão: o presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas defendeu a criação de mecanismos mais simples para contestação das notas, sugerindo que a folha espelho deveria ser um instrumento onde o estudante veja onde está errando ou identifique uma inconsistência, criando um mecanismo para apresentar isso formalmente ao Inep.
A introdução de inteligência artificial em processos avaliativos de larga escala pode, de fato, trazer ganhos de agilidade e consistência. Mas há um risco ético que não pode ser subestimado: se a própria correção humana já enfrenta questionamentos de transparência, a incorporação de sistemas automatizados sem explicabilidade clara pode aprofundar a sensação de que o estudante está sendo avaliado por uma “caixa-preta” indecifrável, sem possibilidade real de contestação. Uma avaliação educacional que decide o acesso de milhões de jovens ao ensino superior carrega responsabilidade social enorme demais para ser tratada como mero processo técnico de eficiência.
O verdadeiro compromisso ético de qualquer inovação tecnológica na educação deveria ser, antes de tudo, com a legibilidade do processo para quem é avaliado. Tecnologia que agiliza a correção sem tornar mais compreensível o motivo de cada nota resolve um problema administrativo enquanto cria um problema de confiança institucional, e este último é bem mais difícil de reparar.
Referências:
Câmara dos Deputados. Inep nega mudança nos critérios da redação do Enem e estuda uso de IA para agilizar divulgação de notas. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1281239-inep-nega-mudanca-nos-criterios-da-redacao-do-enem-e-estuda-uso-de-ia-para-agilizar-divulgacao-de-notas

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