QUANDO A CULTURA NEGRA E PERIFÉRICA VIRA CASO DE POLÍCIA

Um debate promovido na Câmara dos Deputados trouxe à tona uma discussão histórica e ainda muito atual sobre os limites entre segurança pública e liberdade de expressão cultural. A comissão debateu a criminalização da cultura negra e periférica no Brasil, em iniciativa que teve como objetivo debater as estruturas de criminalização que articulam racismo, violência policial e censura cultural.

As parlamentares responsáveis pela proposta destacaram que práticas semelhantes ocorreram ao longo da história com outras manifestações culturais negras, como o samba, o hip hop, o passinho e o próprio funk, que frequentemente são alvo de tentativas de censura sob alegações de “apologia ao crime”.

Essa constatação histórica é o ponto de partida para uma reflexão ética incômoda: por que determinadas expressões culturais, quando associadas a comunidades negras e periféricas, são tratadas prioritariamente como caso de polícia, enquanto expressões equivalentes em outros contextos sociais são recebidas como arte legítima, ainda que tratem de temas igualmente duros, como violência, desigualdade ou criminalidade?

A repetição desse padrão ao longo de décadas, do samba perseguido no início do século passado ao funk questionado hoje, sugere que o problema não está no conteúdo específico de cada gênero musical, mas em um viés estrutural que associa automaticamente cultura popular negra a perigo social.

A criminalização de manifestações culturais tem consequências práticas graves: pode limitar o acesso de artistas periféricos a espaços de apresentação, financiamento e visibilidade, reforçando um ciclo de exclusão que empurra ainda mais esses grupos para as margens da vida cultural reconhecida oficialmente. Ao mesmo tempo, invisibiliza o papel que essas expressões culturais desempenham como narrativa legítima de realidades sociais complexas, muitas vezes ignoradas pelo debate público formal.

Reconhecer a cultura negra e periférica como patrimônio cultural pleno, e não como ameaça a ser vigiada, é um compromisso ético que qualquer sociedade que se pretenda plural precisa assumir. Isso não significa suspender o debate sobre eventuais excessos em qualquer expressão artística, mas exige, sobretudo, tratar com o mesmo rigor e a mesma boa-fé todas as manifestações culturais, independentemente da cor e da origem social de quem as produz.

Referências: 

Câmara dos Deputados. Comissão debate criminalização da cultura negra e periférica no Brasil. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1175521-comissao-debate-criminalizacao-da-cultura-negra-e-periferica-no-brasil/



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