O PREÇO INVISÍVEL DO PROGRESSO: O que o data center do Ceará revela sobre o Brasil que queremos construir.

Nas areias do litoral cearense, ergue-se hoje um dos maiores símbolos da nova corrida tecnológica global. O complexo de data centers da ByteDance no Ceará, desenvolvido pela Omnia, tem custo estimado em R$ 200 bilhões e mira a expansão global da inteligência artificial, mas o projeto enfrenta resistência de comunidades locais.

À primeira vista, trata-se de uma notícia econômica: investimento estrangeiro, geração de empregos, protagonismo do Brasil na disputa tecnológica entre China e Estados Unidos. Mas basta olhar um pouco mais fundo para perceber que essa história também é sobre pessoas, memória e território. Nem todas as comunidades estão entusiasmadas com a perspectiva de viver perto de um data center. Quando Lula viajou ao Ceará em dezembro passado para anunciar o investimento da ByteDance, membros da tribo Anacé bloquearam estradas em protesto contra o projeto.

A razão é simples e ao mesmo tempo devastadora: no início da década de 1990, as autoridades estaduais começaram a desapropriar famílias de suas terras ancestrais para a construção de um porto de águas profundas e um parque industrial adjacente, e, na década de 2010, a Petrobras iniciou o planejamento de uma gigantesca refinaria dentro da zona franca do porto, o que resultou no deslocamento de outras famílias Anacé. Décadas depois, o terreno de um projeto fracassado tornou-se o berço de um novo gigante digital. A líder indígena Andrea Coelho resume o sentimento de parte dessa população: “Sinceramente, não vejo nada de positivo para a nossa comunidade. Não apoio o projeto.”

Há algo profundamente simbólico nisso. Enquanto o mundo debate os limites éticos da inteligência artificial, discutindo vieses algorítmicos e impactos sociais do avanço tecnológico, esquecemos frequentemente que a própria infraestrutura física dessa revolução também tem um custo humano concreto, medido em terra, água e energia. Um data center consumirá tanta energia quanto uma cidade de porte médio, enquanto os Anacé sofrem com apagões frequentes em sua reserva. A contradição é gritante: a mesma infraestrutura que alimentará algoritmos capazes de processar bilhões de dados por segundo convive, a poucos metros, com famílias que não têm energia estável para suas próprias casas.

Esse não é um fenômeno isolado. Conflitos desse tipo têm se tornado comuns em regiões que atraíram grandes investimentos em data centers; à medida que essas estruturas crescem em tamanho e consumo de recursos, aumentam também os questionamentos sobre água, energia e poluição sonora, e em Querétaro, no México, a expansão acelerada do setor coincidiu com uma crise hídrica que deixou milhões de pessoas sob algum tipo de restrição de água.

O Brasil, portanto, não está diante de um caso isolado, mas de um padrão global que repete, sob nova roupagem tecnológica, uma velha lógica: a de que o progresso de poucos frequentemente é construído sobre o silenciamento e o sacrifício de muitos, especialmente daqueles que já historicamente tiveram menos voz.

A reflexão que fica não é contra o desenvolvimento tecnológico em si. É sobre o modo como o conduzimos. Um país pode, sim, ocupar posição estratégica na corrida global por infraestrutura digital sem repetir os mesmos erros que marcaram outros ciclos de expansão econômica sobre territórios tradicionais. A verdadeira medida de progresso não deveria ser apenas a velocidade com que uma estrutura de aço e concreto se ergue sobre o que antes “era tudo mato e vegetação rasteira”, mas a capacidade de garantir que quem já vivia ali antes não se torne, mais uma vez, apenas um dano colateral do futuro que se constrói ao seu redor.

Referências:

Bloomberg LíneaDona do TikTok escolhe o Brasil para seu maior complexo de data centers fora da China. Disponível em: https://www.bloomberglinea.com.br/tech/dona-do-tiktok-escolhe-o-brasil-para-seu-maior-complexo-de-data-centers-fora-da-china/

Ver-o-FatoByteDance investe R$ 200 bilhões no Ceará, em maior datacenter do TikTok fora da China. Disponível em: https://ver-o-fato.com.br/bytedance-investe-r-200-bilhoes-no-ceara-em-maior-datacenter-do-tiktok-fora-da-china/

InvestNewsO data center do TikTok no Ceará: o quebra-cabeça por trás do gigante de R$ 200 bilhões. Disponível em: https://investnews.com.br/negocios/o-data-center-do-tiktok-no-ceara-o-quebra-cabeca-por-tras-do-gigante-de-r-200-bilhoes/

ABRAZPEÓrgãos propõem adequações ambientais em obra de data center de bilhões do TikTok. Disponível em: https://www.abrazpe.org.br/index.php/2026/06/14/o-data-center-do-tiktok-no-ceara-o-quebra-cabeca-por-tras-do-gigante-de-r-200-bilhoes/



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