O CANSAÇO DEMOCRÁTICO E A SEDUÇÃO DO AUTORITARISMO

No último 4 de julho, os Estados Unidos celebraram os 250 anos de sua independência com fogos de artifício recordes e discursos grandiosos. Mas o que deveria ser uma data de unidade nacional se transformou em palanque de disputa política. Em discurso que abriu as festividades, o presidente Donald Trump passou longe de adotar tom unificador, preferindo agitar sua base ao evocar o que chamou de “ameaça mortal do comunismo”, afirmando que o país estava sob um “novo ataque” de “radicais e extremistas”.

Ele chegou a comparar essa suposta ameaça a episódios como “a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, Pearl Harbor ou mesmo o 11 de setembro”. Analistas notaram o contraste: Trump se afastou dos discursos tipicamente apolíticos e unificadores que presidentes anteriores, como Gerald Ford ou Ronald Reagan, proferiram durante celebrações anteriores de grande visibilidade do Dia da Independência.

Esse episódio, isolado, poderia ser apenas mais um capítulo da retórica de um líder específico. Mas ele se conecta a um retrato bem mais amplo e preocupante do estado da democracia no mundo. A onda democrática que começou há mais de 50 anos foi seguida pelo que os estudiosos chamam de “recessão democrática”. A democracia está agora de volta aos níveis de 1985, com 72% da população mundial vivendo atualmente sob regimes autoritários.

O mais grave é que países vêm decaindo no ranking de avaliação democrática, como Estados Unidos, China e Rússia, considerados menos livres do que há 20 anos. O que explica esse retrocesso silencioso? Uma pista importante está menos nas instituições do que no ânimo das próprias sociedades. A democracia já viveu momentos mais efusivos. Especialmente na nova geração, que não viveu as agruras das ditaduras, a tolerância com alternativas autoritárias é preocupante.

Não se trata de uma conversão ideológica das pessoas ao autoritarismo, mas de um cansaço profundo. O autoritarismo surge nas brechas deixadas pelo cansaço da sociedade com a falta de capacidade de respostas da democracia para os seus problemas concretos e de entendimento cooperativo entre lideranças democráticas e instituições. Esse cansaço tem nome e sintoma. No Brasil, às vésperas de uma eleição decisiva, o diagnóstico se repete: será difícil o eleitor entrar em 2026 com entusiasmo e convicção, pois é movido por um medo binário, de retorno do autoritarismo e do colapso institucional. Esse binarismo se retroalimenta e é paralisante.

A reflexão que emerge desse cenário é incômoda, mas necessária. A democracia não morre apenas por golpes espetaculares, ela também se esvazia lentamente quando os cidadãos deixam de acreditar que ela resolve os problemas do cotidiano. Quando um discurso que deveria celebrar a união de um povo se transforma em instrumento de divisão, o alerta não é apenas sobre um governante, é sobre o tipo de vínculo que uma sociedade ainda consegue manter consigo mesma. A verdadeira ameaça à liberdade talvez não esteja tanto nos inimigos externos que a retórica política costuma apontar, mas na exaustão coletiva que nos faz duvidar se vale a pena continuar defendendo, todos os dias, algo tão frágil e tão necessário quanto a democracia.

Referências:

Deutsche Welle (via Terra). “Trump usa festa de 250 anos como palanque para atacar adversários.” Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/trump-usa-festa-de-250-anos-como-palanque-para-atacar-adversarios,7026f72b226d7b89c7c216f01be11df9aqsovv8j.html

Human Rights Watch. “Relatório Mundial 2026.” Disponível em: https://www.hrw.org/pt/world-report/2026

GIFE. “Pesquisa aponta que boa parte do mundo vive ‘erosão da democracia‘.” Disponível em: https://gife.org.br/pesquisa-aponta-que-que-boa-parte-do-mundo-vive-erosao-da-democracia/

CEBRI-Revista. “A Democracia sob pressão: o que está acontecendo no mundo e no Brasil.” Disponível em: https://cebri.org/revista/br/artigo/23/a-democracia-sob-pressao-o-que-esta-acontecendo-no-mundo-e-no-brasil

Correio Braziliense (Luiz Carlos Azedo). “2025: Democracia mostra resiliência em meio à fricção entre Poderes.” Disponível em: https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/2025-democracia-mostra-resiliencia-em-meio-a-friccao-entre-poderes/

O Tempo (Marcus Pestana). “A ameaça à democracia: cenário incerto para 2026.” Disponível em: https://www.otempo.com.br/opiniao/marcus-pestana/2025/12/6/a-democracia-ameacada



Deixe um comentário